quarta-feira, 27 de abril de 2016

CAPÍTULO 2 - ESTEVAN

Estava dando a última volta no quarteirão para finalmente poder voltar para casa. Fazia frio em Londres naquela manhã, mas o suor corria incansavelmente por meu rosto. Para animar minha corrida, ouvia uma playlist com músicas do Ed Sheeran no meu ipad. Era uma das poucas formas que eu consegui encontrar para aliviar a tensão que sentia todos os dias. 
Depois de acabar a corrida, voltei para meu apartamento, enxuguei meu rosto em uma toalha e tomei um copo bem gelado de água, enquanto olhava satisfeito para meu apartamento. Não era muito, mas eu mesmo admitia que a alguns anos atrás eu nunca imaginaria ter algo assim. 
Apesar de hoje Londres ser o meu lar, não foi fácil para mim ter que deixar Paris, minha cidade natal. Meus pais eram divorciados, e aos oito anos de idade, eu perdi minha mãe para um tipo raro de pneumonia. Eu nunca me dei muito bem com meu pai, mas depois disso, a justiça passou a minha guarda para ele. Meu pai era um alcoólatra compulsivo, e na maior parte do tempo, eu me encontrava sozinho em casa, eu achava melhor assim, porque quando ele chegava em casa ao anoitecer, ele sempre me batia ou me agredia. 
Quando eu completei doze anos as coisas pioraram. Ele começou a se envolver com o tráfico de drogas nos subúrbios de Paris e me obrigou a participar com ele. Eu disse que não queria, mas ele me bateu e me forçou a participar com ele. 
Em um desses dias, que sai de casa para visitar um de seus receptores, eu fugi. Coloquei as poucas coisas que me pertenciam em uma mochila e fui para o mais longe que pude da minha casa. Se é que alguém podia chamar aquilo de lar.
Vivi durante um bom tempo pelas ruas de Paris, era visto pelas pessoas como um nada, passei fome e necessidades, mas de alguma forma, era muito melhor estar ali, do que em casa. 
Infelizmente, depois de mais ou menos dois meses meu pai me encontrou. Não tinha como fugir. A dor que senti naquele dia foi maior do que tudo, tão grande e insuportável que me fez querer desejar a morte. Lembrar aquele dia me fazia ter calafrios. Haviam marcas no meu corpo e no meu coração que jamais poderiam ser apagadas. 
Depois de deixar o copo sobre a pia, consegui ouvir claramente as palavras que meu pai me disse naquela noite. Enquanto eu estava caído no chão, abraçado ao meu corpo, buscando uma maneira de amenizar o mínimo possível a dor que sentia, meu pai me olhava friamente enquanto dizia: "Essa surra foi pra te mostrar quem é que manda aqui! É bom não tentar fugir de mim de novo, ou será mil vezes pior para você. Eu mando, você obedece, é bem simples." 
E eu obedeci, o que mais eu poderia fazer? Nós anos que se seguiram eu continuei a ajudar o meu pai com o seu serviço sujo, e de cada pagamento que recebia eu tirava um pouco, o mínimo possível para que ele não percebesse o que eu estava prestes a fazer.
Quando eu finalmente completei dezoito anos de idade, eu tinha dinheiro suficiente para comprar uma passagem para bem longe dali e foi isso o que eu fiz. Lembro que naquele dia, eu tentei ser o mais natural que pude, o mais discreto possível, lembro que por algum motivo ele ainda chegou a me agredir e depois me mandou para a rua, para que pudesse receber mais contas pendentes para ele. Foi o fim. Lembro que eu estava paranoico, enquanto ia para a rodoviária, ficava olhando em todas as direções para ver se ele não estava vindo atrás de mim, ou se me apanharia bem na hora H. Felizmente não demorou muito para que eu embarcasse e fosse em direção a uma cidade ao Sul do país, a pouco mais de quatrocentos quilômetros de Paris. Lembro também que mais de duas horas depois, minhas mãos ainda tremiam e eu soava se parar. 
Depois de chegar nesta cidade, eu sabia que era só questão de tempo até que meu pai viesse atrás de mim, logo no mesmo dia, procurei por algum emprego e como por sorte, consegui arrumar um como garçom em um restaurante de quinta. A gorjeta que ganhava não era muita, mas o suficiente para que em pouco tempo eu pudesse me ver bem longe dali.
Quase dois meses depois eu consegui juntar dinheiro suficiente para comprar uma passagem de avião para Londres. Não ouve um motivo específico para que eu escolhesse fugir para a Inglaterra, mas a princípio ela me pareceu ser longe o suficiente e talvez meu pai nunca me encontrasse ali. 
Foi um alívio quando o avião finalmente pousou e eu pisei em solo inglês. Tudo o que havia vívido até então não parecia ser nada perto do que era agora. Eu estava livre, havia conseguido minha alforria. Mas nem por isso, tudo veio de mão beijada para mim. 
Além de não saber falar nada de inglês, ninguém parecia querer dar um emprego para uma pessoa que parecia se vestir como um mendigo. E durante minhas primeiras semanas ali, foi isso o que eu fui, um mendigo. Sem dinheiro pra qualquer coisa eu passei a viver pelas ruas de Londres, o que claro, já não era uma novidade para mim. 
Um dia crucial para a minha vida, foi quando um homem bem vestido se aproximou com uma câmera para perto da ponte em que eu e outros mendigos nos abrigávamos. Eu estava sentado ao longe, observando-o  gesticular com os outros homens, eu não conseguia entender uma só palavra do que eles diziam. Depois de muito  diálogo, ele começou a fotografar um por um, até chegar em mim. Ri daquilo, minha decadência seria registrada em uma fotografia miserável. Depois de achar que a vida não poderia ser mais dura comigo lembro de pronunciar em alto e bom francês: "Só pode ser brincadeira." O fotógrafo parou o que estava fazendo e me encarou: "Você também é francês?" ele perguntou. Eu fiquei tão feliz por finalmente encontrar alguém que me compreendia, um novo caminho parecia estar se abrindo para mim. Depois de conversamos por alguns minutos, ele me disse que seu nome era Pierre e que também era de Paris, perguntou os motivos que me havia levado até ali e eu lhe contei minha  história. Ele pareceu se surpreender com o que havia acontecido comigo. Logo em seguida, ele me convidou para comer um sanduíche em bar próximo dali. Minha fome era tão grande que quando eu me deparei com aquele belíssimo sanduíche, todas as etiquetas que havia aprendido ao longo da vida foram deixadas de lado, eu percebia as pessoas me observarem, hora com repulsão, hora com pena, mas a minha fome ainda era maior do que tudo:
-Quantos anos você tem? -Pierre me olhava atentamente.
-Dezoito. -Respondi.
-Olhe, eu trabalho como fotógrafo e estou precisando de um assistente para me ajudar com os equipamentos, você estaria interessado no emprego? 
-Mas é claro! -Minha felicidade não podia ser maior- Quando eu começo? 
-Que tal hoje mesmo? 
Ele me levou para sua casa, onde eu pude tomar um belo banho e vestir roupas limpas. Pierre era um homem gentil e ele deveria ter aproximadamente a mesma idade que meu pai, e talvez a única semelhança que existe entre eles fosse apenas essa. Eles eram homens completamente diferentes. Ele me ensinou a falar inglês e a amar a fotografia. Ele me fez perceber o quanto é mágico capturar um sentimento pela lente da  câmera e com o tempo, eu só fui me apaixonando mais e mais por esta arte. Com sua ajuda e com muito estudo, eu consegui uma bolsa para fotografia em uma das melhores faculdades de Londres. Pierre estava sendo para mim o pai que nunca havia tido, ele era o meu único amigo. Infelizmente a vida encontrou mais uma vez um meio de me dar uma rasteira e o tirou de mim. 
Hoje, quando olho para o meu apartamento, não vejo apenas uma vitória minha, mas minha e do Pierre, tudo o que tenho é sou hoje devo exclusivamente a ele.
Como disse, não era muito, o apartamento contava com um quarto, uma sala que eu havia transformado em estúdio, uma cozinha, área de serviço e um banheiro. Como já estava no meu último ano da faculdade, vez ou outra alguns serviços como fotógrafo profissional apareciam para mim, mas na maioria das vezes, eu trabalhava como paparazzi de revistas de fofocas. Não era o que eu imaginava para minha carreira, mas eram serviços assim que garantiam o meu sustento. 
Enquanto tomava uma ducha, ouvi meu celular tocar. Me enrolei em uma toalha e o apanhei de cima da cama: 

-Encontrou algo pra mim? -Era Layla. Uma amiga, que trabalhava em uma revista de fofocas muito famosa entre os Londrinos e que sempre me ligava quando precisava dos meus serviços.
-O que você acha? -Ela sorriu do outro lado da linha.
-O que é desta vez? Um cantor, uma atriz...
-Não. Desta vez preciso que você faça algumas fotos da Princesa Sophia. Acha que consegue? 
-Por que você ainda pergunta? Me mande o endereço, já estou indo para lá. - Durante meu serviço como paparazzi eu já havia fotografado de tudo, mas a princesa era novidade.

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